Uma semana na Estrada Nacional 2

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A manhã ainda só vai a meio e a água dos bidões já está quente. Numa esquina, à saída das Alcáçovas, a “capital do chocalho”, surge o que aparenta ser a solução: o Café Maravilha.
Para o penúltimo dos sete dias dedicados a descobrir a estrada Nacional 2 (N2), que liga Chaves a Faro, as previsões meteorológicas alertavam para uma onda de calor. O dono do café, que na prática tem mais de uma antiga taberna, está prevenido. Colocou estrategicamente uma cadeira junto a um frigorífico vertical, dos que são distribuídos pelas marcas de refrigerantes e cervejas, e está sentado com as costas encostadas à “máquina de fazer frio”.
“Tem águas de meio litro frescas?”
O homem, na casa dos 70, olhou fixamente o forasteiro que lhe entrara de rompante pela casa adentro e sentenciou com ar de quem não admite sequer contestação: “Não podes beber água fria! Estás suado…”
Natural, que seja. Sempre seria melhor do que aquele líquido choco que saíra com pedras de gelo umas duas horas antes de Montemor-o-Novo.
A melhor solução foi mesmo negociar. “Dê-me duas então. Uma natural e outra fresca e faço um “traçadinho” num copo”.
O silêncio foi aprovador. Esticou um braço para o espaço dos arrumos e estendeu-me um copo de plástico para fazer a mistura. A primeira dose foi de pénalti. O troco veio de uma caixa de madeira só com moedas. E de novo para a estrada, que Ferreira do Alentejo e o almoço ainda estão a 45 quilómetros.

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À procura da estrada perdida – Dia um

N2 Vila Real

20160710_165400Se fôr todos os dias assim, vai ser ainda melhor do que o aguardado. Dificilmente poderia ter corrido melhor a jornada primeira de sete dias que eu o Nuno Henrique Luz iniciámos neste domingo em Chaves e que pretendemos concluir no próximo sábado em Faro.

Para “entrada” foram 82,5 quilómetros até Peso da Régua, com um acumulado de desnível ascendente de 1780 metros, o que equivale a bastante mais do que subir ao topo da Serra da Estrela a partir da Covilhã. Nada do outro mundo, a não ser para mim, uma “maçarico” nestas lides, que nunca se tinha atrevido a subir tanta serrania num único dia de sol.

Mas valeu, a pena, garantidamente. Pelas paisagens, pela comida, pela água fresca, pela simpatia das pessoas que fomos encontrando. E pelas sensações que encheram a alma.

Decididamente, a bicicleta é o melhor meio de transporte para viajar e conhecer mundo. Tive uma espécie de êxtase logo aos dois quilómetros e não me contive. “Que não haja dúvida que andar de bicicleta é uma coisa extraordinária”, disse eu ao sentir uma sensação invulgar semelhante às covas do rosto a aumentarem muito.

Ele, um ciclista experiente, com muitos milhares de quilómetros nas pernas cumpridos em vários continentes e nas mais difíceis provas fora de estrada do mundo, reforçou.

Mal estas palavras tinham sido ditas e eis que apanhamos a roda de outro ciclista, entre os muitos com quem nos cruzámos hoje. Chamava-se Rodrigo, é de Chaves mas mora e trabalha em Espanha, que fica a pouco mais de cinco quilómetros. Visto pelas costas notava-se que era um atleta veterano. “Tenho 73 anos”, respondeu ele numa espécie de portunhol. Transparecia que pedala muito e regularmente. “Não. Só quando tenho tempo, que é pouco, por causa da lavoura”. Tinha uma bonita bicicleta clássica e ia equipado a rigor. Lá ficou no seu ritmo e nós prosseguimos, por Vidago e Pedras Salgadas, terras de afamadas águas minerais. Na última reabasteci-me de água…na torneira de uma bomba de gasolina.

Para trás ficou um percalço que só não acontece a quem não viaja. No jantar de sábado, já em Chaves, ficou esquecido um saco com uma carteira e muito dinheiro, num restaurante que fecha aos domingos. A ideia de partir logo a seguir ao pequeno-almoço, que podia ser tomado a partir das 07:30, caiu por terra.

Nada que alguns telefonemas não resolvessem e pouco mais de uma hora depois o proprietário do restaurante Adega Faustino (citar o nome não pode ser entendido como publicidade mas como um gesto de justiça básico) entregou o saco intacto, após ter-se deslocado propositadamente de casa, sem pestanejar, no seu dia de folga. Um mapa importante foi o segundo esquecimento da jornada, no hotel, mas no entretanto também recuperado.

Tirada a fotografia da praxe junto ao marco 0 da Estrada Nacional 2, estava dada a partida. Às 10:10 deste dia 10 de julho.

No início esfumou-se a ideia de que a N2 seria uma estrada antiga, com muitas curvas e provavelmente com aquele piso de alcatrão que já não se usa. Nada disso. Essa versão só surgiria de tarde. Ali, tem um asfalto regular e bom, que permite progredir calmamente e sem sobressaltos. Nada de subidas íngremes, embora as elevações tenham que ser ultrapassadas.

Viajar de bicicleta é o melhor modo de sentir os elementos. Seja calor ou frio, sol, chuva ou vento. E ver e ouvir tudo os que nos rodeia, o que só pode ser igualado por quem se desloca a pé. A banda sonora de hoje de manhã foi assegurada por muitos pássaros escondidos em carvalhais e bastantes cigarras, que ficam eufóricas com o estio e os 34 graus que as bafejavam. A elas e a nós até, Vila Real, após 62 km.

Antes de entrar na que é uma das capitais transmontanas, a N2 proporciona uma espécie de primeiro arrepio. Deixa de ser reta e esguia e passa a ser composta por curvas apertadas, deixando não ver mais do 50 metros de traçado de cada vez, serpenteado, a descer, pelo meio de giestais amarelos e muito floridos nesta altura.

Quanto mais perto a cidade, mais o asfalto de inclina para a frente. Excelente para secar o suor antes de entrar no restaurante, escolhido pelo Nuno com recurso aos seus reconhecidos pergaminhos na matéria e poupar os outros comensais a alguma repulsa olfativa.

Para carregar baterias, uma bela de uma posta de vitela à moda da casa e um cabrito como deve ser. Outra vez simpatia na casa, à cunha. Pelos menos dois dos empregados eram também ciclistas e até os nossos veículos tiveram direito a “descansar” no hall de entrada enquanto nós restabelecíamos a força e a coragem para regressar ao “braseiro”. Alguém recordou ao Nuno que estávamos numa cidade onde há nove meses de inverno e três de inferno. Na rua estavam 31 graus.

Uma das maiores dificuldades de quem se mete em aventuras destas é conseguir beber água que não esteja quente. Não há recipientes adequados à situação (leves) que conservem a água a uma temperatura que não resvale para o chá sem nenhum aroma. Depois de paga a conta do almoço, chegou a sugestão um dos empregados: “Querem gelo para colocar na água?”. Pois claro! O atendimento deve também ser recomendado neste caso, onde, como em qualquer outro, as contas são normalmente pagas como qualquer freguês que não se apresente de licra, esclareça-se. Chamava-se Restaurante Maria do Carmo.

Para a tarde estava reservado um menú paisagístico bastante diferente do que se vira e sentira na primeira metade do dia. Apareceram os vinhedos, aqueles que se prolongam por encostas sem fim e que valeram à região duriense ser considerada Património Mundial da Humanidade.

Não se pense, contudo, que fazer a N2 de bicicleta é só desfrutar de paisagens magníficas. Aquela terra agreste e montanhosa parece não oferecer nada de graça a ninguém. Mal se deixa Vila Real e lá estão elas, as maiores subidas do dia. Poucos carros e algumas sombras amenizam a coisa. O melhor é quando se acaba aquele ritmo forte em que se anda pouco. Começa uma descida que parece nunca mais acabar e a estrada passa a confundir-se de longe com um dos incontáveis socalcos de vinha que a acompanham por cima e por baixo. É deixar a bicicleta ir e sentir o vento que a velocidade ajuda a ser menos quente em dias assim. Descansam as pernas, começam a trabalhar as mãos nos travões. E a adormecer.

Tudo o que é bom acaba e não sei quantos quilómetros depois lá voltam as subidas. Se não eram, pareceram muito maiores que as descidas. Foi trepar, trepar, trepar até Santa Marta de Penaguião. Valeu uma fonte a correr basta água fresca onde seria quase criminoso não parar para reabastecer e refrescar o corpo por dentro e por fora.

Mais meia dúzia de quilómetros e lá veio outra benesse, que só terminou quando a última descida do dia acabou no Peso da Régua, terra de muitas e antigas calçadas onde qualquer ciclista louvará a suspensão, caso a tenha. Como não era o caso, lá voltaram as mãos à baila para sofrer o adormecimento do dia. O que salva é que o Douro está aqui, quase aos pés, a deixar-se ver pela janela que atrai o olhar de escribas pouco inspirados.

Amanhã vai ser uma espécie de etapa-rainha da montanha. Atravessar o rio, subir até Lamego, depois até Castro D’Aire, para chegar a Viseu e terminar em Tondela dizem não ser tarefa fácil. Há-se cumprir-se. E agora vamos ver o Portugal-França, que nem só as bicicletas emocionam.

Boas pedaladas!

[A viagem “À procura da estrada perdida” é patrocinada pelo Crédito Agrícola e apoiada pela Federação Portuguesa de Ciclismo]

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À procura da estrada esquecida

Santa Apolónia
20160709_193813_FotorUm país com quase 900 anos de história tem também uma das estradas mais antigas do mundo. No extremo ocidental da Europa foi construída aos longo dos séculos a via que passou a designar-se Nacional 2 (EN-2) e que é hoje, na era da multiplicação das auto-estradas, a “estrada esquecida” portuguesa.
Liga Chaves a Faro e tem 738,5 quilómetros de extensão. Atravessa os vinhedos do Douro, as beiras, o pinhal da região Centro, os montados ribatejanos e a planície alentejana antes de chegar ao oceano, na capital algarvia. Há alturas em que a estrada se perde, se esconde atrás de realizações mais modernas, e temos de ir à procura dela com atenção.
Alguns troços já existiam no tempo dos romanos e uma boa parte da via foi reconstruída na século XIX. O traçado atual foi inaugurado em 1944.
Afastado do litoral onde quase tudo parece acontecer, há como que um outro Portugal que sobrevive. É esse que o Pedais.pt também vai revelar nos próximos dias. A pedalar, para ver, ouvir e contar. E mostrar que o cicloturismo tem um país para desbravar, de clima ameno e apetecível quase todo o ano.
No anunciado regresso sob a forma de blogue, o Pedais.pt vai percorrer a Estrada Nacional 2 de Trás-os-Montes ao Algarve. Dois jornalistas, António Martins Neves e Nuno Henrique Luz, vão, a partir deste domingo, atravessar a pedalar 11 distritos, cruzar outros tantos rios, incluindo o Douro e o Tejo, ultrapassar quatro serras e percorrer os 29 concelhos ligados pela via que é conhecida pela “Route 66” portuguesa, se a Route 66 tivesse a história que tem a N2. Serão sete dias em que se vai trazer para a ribalta a “estrada esquecida” portuguesa.
A iniciativa é patrocinada pelo banco Crédito Agrícola, tem o apoio da Federação Portuguesa de Ciclismo e vai ser contada em português e inglês.
António Martins Neves e Nuno Henrique Luz
[A viagem “À procura da estrada perdida” é patrocinada pelo Crédito Agrícola e apoiada pela Federação Portuguesa de Ciclismo]
#aestradaesquecida #theforgottenroad #cicloturismo #n2 #créditoagrícola #FedPortCiclismo
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Acabou o Pedais.pt

Logo_PedaisPT (arrastados)

Quarenta e um meses aparentam ser uma vida curta, mas a desta publicação foi bastante intensa e vivida diariamente, com um andamento forte, quase sempre a dar tudo. Não vou arrumar a bicicleta, mas vou dar folga ao computador.

Aprendi cedo no jornalismo que mesmo nas crónicas e nos artigos de opinião deve evitar-se a escrita na primeira pessoa do singular. Desta vez, contudo, não me resta alternativa. O Pedais.pt nunca deixou de ser um projeto pessoal, que sonhei levar por diante desde o outono de 2012.

Tentei tudo o que esteve ao meu alcance para o conseguir, mas não bastou. Consegui entusiasmar algumas pessoas e é a essas que me dirijo em primeiro lugar, para lhes agradecer terem estado do meu lado todo este tempo e também elas terem acreditado. Apesar de tudo isso, o Pedais.pt chegou ao fim.

Quero garantir-lhes que isto não é uma desistência, antes a constatação de que um projeto, qualquer que ele seja, tem que crescer, a partir de um determinado momento. Se não o conseguir acabará por desaparecer, naturalmente. Foi o que sucedeu com o Pedais.pt.

O entusiasmo e o acreditar que era fundamental, neste momento, criar um jornal eletrónico que olhasse para a bicicleta enquanto meio de transporte e também como protagonista de um dos mais belos desportos não chegaram às pessoas/instituições que poderiam ter evitado este desfecho.

Conclui que não basta ter uma boa ideia e pô-la em prática, para que possa ser comprovada. Isso, confirmei, é curto para entusiasmar os protagonistas de um setor mesmo em forte crescimento em Portugal, onde também dizem haver muitos outros empreendedores dispostos a arriscar. Na prática, não os encontrei.

Senti-me muitas vezes na pele daqueles que pensam inovar e mudar de vida e decidem ir ao banco, procurar financiamento. Não o conseguem porque no banco pedem-lhe garantias bancárias que eles não têm, porque, se as tivessem, obviamente, não iriam pedir um empréstimo.

No meu caso, que nunca pensei nisso, foram 41 meses de investimento pessoal e financeiro sem um cêntimo de retorno.

Não estou arrependido. Pelo contrário. Aprendi muito e reforcei muitas convicções. Tenho agora muito mais a certeza, e bem melhor alicerçada, de que a bicicleta é a melhor máquina jamais inventada. E, mais do que isso, vai ter um papel fundamental na sobrevivência da sociedade humana no futuro.

De caminho, aprofundei os meus conhecimentos sobre os desportos praticados a pedal e como são bem mais emocionantes do que aquelas modalidades para as quais nos formatam desde pequenos. Nestes quase três anos e meio vibrei, como poucas vezes me acontecera antes, ao ver ciclistas portugueses ganharem provas e colocarem-se ao lado dos melhores do mundo sem que por cá se desse relevância a isso.

Ficou isto tudo, que é bastante, e algumas amizades e conhecimento com pessoas fantásticas apostadas nesta causa comum de alterar hábitos entranhados que tanto nos impedem de ser mais felizes, recorrendo apenas à bicicleta. Sinto que sou hoje um cidadão mais responsável e consciente.

Garantidamente, fiquei um adepto incondicional do meio de transporte de duas rodas, a pedal, para ir trabalhar, dar longos passeios ou percorrer trilhos em qualquer um dos locais magníficos que abundam neste país.

Como diz o Pedro Manuel, “pedalar é voar sem asas” e eu vou desfrutar ainda mais desse belo lema.

Obrigado aos muitos leitores que passaram por aqui diariamente e a todos que colaboraram, contribuindo desinteressadamente para este projeto, porque, como eu, acreditaram nele.

Abraço e até sempre.

Vou andar pedalando por aí

António Martins Neves

 

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